To Live Abroad

Arábia Saudita e a Carreira Internacional de Pedro Bottesi Neto

*Por Graziele Zwielewski

Sabemos que Carreira Internacional é o desejo de alguns profissionais. Muitos acham facilmente os caminhos, outros definem passos para conquistá-la. Mas todos abrem mão de algum benefício da carreira nacional, em prol da internacional. No caso de Pedro Bottesi Neto, que tem no currículo empresas como International Paper, ECC International; Imerys; Netzsch AKW e Samsung; precisou passar 1 ano e 7 meses na Inglaterra para então assumir a atual posição de Diretor de Desenvolvimento de Negócios na Ma’aden Saudi Arabian Mining.

Do que ele abriu mão? De estar diariamente com a família…

Além de falar sobre sua trajetória, Pedro dá dicas para brasileiros que pretendem fazer carreira internacional e menciona as áreas em ascensão na Arábia Saudita (um país onde a diferença cultural é gritante). Acompanhe na entrevista abaixo:

Como tudo começou? Qual foi a sua primeira experiência profissional internacional e como ela surgiu?

PBottesi: Desde o inicio da minha carrreira, desde meu primeiro emprego na International Paper (filial brasileira), a minha exposição a culturas internacionais aconteceu, pelo fato de trabalhar numa multinacional e conviver com estrangeiros. Após um pouco mais de um ano na IP, fui convidado para trabalhar na ECC do Brasil, a filial brasileira da ECC International Ltd., empresa inglesa que, na época era a maior Empresa do mundo no segmento de minerais industriais. Quando comecei na ECC, havia um grande número de ingleses trabalhando na filial brasileira, uma vez que a Empresa havia acabado de iniciar suas atividades no Brasil. Com dez meses de ECC, fui enviado à sede da empresa na Inglaterra para treinamento. No inicio tive dificuldades com a língua, pois não era fluente em inglês. Após algumas semanas, meu inglês melhorou muito. Não havia outro caminho, pois La não havia ninguém que falasse Português.

Foi uma experiência muito marcante em minha carreira. Todo final de dia me sentia exausto pelo esforço em me comunicar. No entanto, aquela experiência foi tão enriquecedora que despertou dentro de mim o interesse em conhecer novos países, novas culturas e, eventualmente, trabalhar no exterior algum dia.

 

Pedro, você é Geólogo com formação no programa General Management Education pela London Business School. Você acredita que sua formação no exterior auxiliou para que a oportunidade de carreira internacional aparecesse?

PBottesi: Sem duvida, se considerarmos os cargos que ocupei e ocupo atualmente.

Qual eram seus planos profissionais antes de começar a trabalhar? Existia um plano de carreira traçado em direção de uma carreira internacional?

PBottesi: Na realidade, meu plano era seguir uma carreira generalista.

Inicialmente segui uma carreira mais técnica, depois passei a gerenciar varias áreas e consegui atuar em praticamente todos os setores de uma empresa. Creio que atingi meu objetivo.

 

Alguns consultores de carreira indicam que o candidato a uma vaga use do marketing pessoal para evidenciar seus bons resultados e passar uma imagem mais positiva e segura. Você acredita que essa postura no cenário internacional é benéfica? Empregadores da Arábia Saudita vêem essa postura com bons olhos?

PBottesi: Sim. Penso que o marketing pessoal e importante não só para a carreira do profissional, mas também em todas as outras atividades na vida de um individuo.

 

Quais as maiores oportunidades para profissionais que pretendem trabalhar na Arábia Saudita?

  PBottesi: Ha oportunidades em muitas áreas. O setor de tecnologia de informação emprega muitos estrangeiros, assim como o setor bancário, a área de saúde, serviços, e alimentos (alguns dos maiores laticínios do mundo estão na Arábia Saudita). Claro que há muitas oportunidades para nossos jogadores de futebol e técnicos, que são muito bem vistos aqui. Também na área de transporte aéreo. Há pilotos, engenheiros e administradores brasileiros trabalhando nesse segmento aqui na Arábia.

Alguma situação constrangedora durante o contato com árabes, devido à diferença cultural?

PBottesi: Um vizinho meu foi ao shopping de bermuda curta e foi barrado na entrada.

Em algum momento você se sentiu um “peixe fora d’água”?

PBottesi: No inicio, quando comecei a freqüentar restaurantes típicos onde a maioria dos freqüentadores são árabe. Mas nunca fui mal tratado ou vitima de algum tipo de preconceito.

 

Você comentou que está “casadíssimo” há 20 anos com sua esposa e tem filhos adolescente/adulto, mas nenhum deles mora com você. Porque decidiram pela distância? Foi assim também quando morou na Inglaterra?

PBottesi: Sim. O principal motivo foi a idade de meus filhos. O mais velho esta na faculdade. O mais novo vai fazer vestibular esse ano. Para eles, a mudança para o exterior poderia se tornar um choque muito grande.

A maioria dos profissionais que vem pra cá ou não tem família, ou então tem filhos pequenos, ou filhos adultos independentes.

 

Como lida com a falta da família? O vazio não invade?

PBottesi: É difícil. Internet, Skype e telefone são as formas de amenizar a saudade.

O individuo que vem trabalhar e morar no exterior precisa ter noção do que vai enfrentar.

Conheci pessoas que não ficaram nem um mês aqui e se foram. Se você não esta preparado psicologicamente para ficar longe da família, amigos, de sua casa, não venha.

No meu caso, e difícil para a família suportar a distancia. Porem, para mim e ainda mais difícil. A família sente saudades de mim. Eu tenho minha esposa, meus dois filhos e nossas seis cachorras para sentir saudades!

 

Como sua família lida com a distância?

PBottesi: Usando as ferramentas de comunicação que temos hoje. Ale disso, minha esposa tem uma estrutura muito forte para cuidar de nossa família e da nossa casa. Lembre-se que o fato de eu estar aqui não implica apenas em saudade, mas também no fato de que a esposa tem que cuidar da família sozinha. E um desafio grande.

 

Em algum momento você sentiu que na convivência com a cultura local você teria que abrir mão de valores pessoais e culturais teus?

PBottesi: Valores pessoais não. São importantes aqui como em qualquer outro lugar do mundo.

Valores culturais alguns. Você tem que respeitar a cultura local para que possa ser respeitado também.

 

Qual a sua religião? Como os Brasileiros podem lidar com a forte opressão ao cristianismo na Arábia Saudita?

PBottesi: Sou católico. A prática aberta de outras religiões que não a muçulmana e proibida aqui.

No entanto, isso não impede que eu continue a rezar em meu cantinho sem repressões.

 

Qual a participação de mulheres no mercado profissional árabe?

PBottesi: Pequena. Isso deve mudar. Esta em construção a primeira universidade só para mulheres na Arábia.

Lembre-se que aqui homens e mulheres estudam em escolas separadas.

 

Como sua esposa se comporta ao te fazer visitas?

PBottesi: Veste-se com a abaya, que cobre o corpo, mas não o rosto. Fora isso, tudo normal. Andamos de mãos dadas nos lugares públicos que freqüentamos. Isso e pratica normal entre os árabes também.

 

Dentre os países que você já negociou, morou ou teve contato, quanto você acredita que o entendimento da cultura influencia no sucesso de uma boa relação?

PBottesi: Quanto maior o entendimento da cultura local, maior a chance de sucesso numa relação de negócios.

Os árabes, assim como a maioria dos outros povos, respeitam os estrangeiros que se esforçam para entender suas culturas.

 

Quais as diferenças culturais entre Brasil e Arábia Saudita que podem se tornar empecilhos para a carreira de Brasileiros, caso não sejam respeitadas?

PBottesi: As diferenças são comportamentais e religiosas. Em termos de carreira, nas grandes empresas as diferenças são mínimas em comparação com o ocidente. A cultura empresarial nas grandes empresas e baseada nos modelos ocidentais. A competência e a experiência são muito respeitadas e valorizadas aqui.

 

Quais as variáveis da cultura árabe que precisam ser consideradas por profissionais que não pretendem morar, mas fazer negócios com o mercado Árabe?

PBottesi: O consumo de bebidas alcoólicas é vetado; cruzar as pernas e deixar aparecer a sola dos sapatos é considerado um insulto; A mão esquerda também não é utilizada por ser considerada impura e carne de porco, cuja venda e consumo são proibidos aqui.

Esses e outros fatores culturais são rigidamente respeitados pelos árabes, mas você acredita que a redução na carga horária durante o Ramadan; fechar as lojas por 20/30min para orações, entre outros; afetam diretamente a economia do país? Será que essas regras não se tornam barreiras para o crescimento econômico?

PBottesi: Não, pois todas as pessoas e as empresas estão acostumadas com isso. As lojas e shoppings ficam abertos ate mais tarde para compensar. Aliás, os shoppings centers daqui estão entre os melhores que já vi.

Talvez pelo fato de que fazer compras no shopping seja uma das diversões favoritas dos árabes que moram nas cidades grandes.

 

Conscientizem-se das dificuldades e das diferenças culturais entre os países. Estejam seguros do passo que vão dar para que não haja arrependimento.

 

Que dicas você daria para um brasileiro que deseje se tornar um “Agente Conselheiro de Árabes” para investimentos aqui no Brasil? Uma pessoa que procure locais para investimentos, que procure parceiros de negócios…?

PBottesi: Falem comigo…

 

Como o Brasil e a economia Brasileira são vista pelos Investidores Árabes?

PBottesi: Os árabes adoram o futebol brasileiro. Conhecem todos os jogadores mais famosos e acompanham suas carreiras. O Brasil também e visto como um país de grande extensão territorial, muito verde, rico em recursos naturais, além de ser o país do samba, do carnaval, mulheres bonitas, Rio, etc., como em qualquer outro lugar. Com o advento da TV por satélite, os árabes passaram a ter acesso as informações sobre o que acontece no mundo.

 

Quais os principais investimentos árabes no Brasil?

PBottesi: Os investimentos diretos de árabes e empresas árabes no Brasil ainda são pequenos (em torno de USD 72M foram investidos em 2009). Mas o interesse está aumentando. Os catarianos tem interesse em investir no Brasil nos setores de energia, imobiliário, agronegócio. Estão interessados em fazer parcerias com empresas brasileiras. Já o fluxo de investimentos brasileiros no mundo árabe ainda e pequeno. Porem as iniciativas crescem dia a dia. Ha varias marcas brasileiras com lojas na região, como o Boticário, Carmem Steffens, Via Uno, Arezzo Colcci e Hering Ha também a Randon, Andrade Gutierrez, Friboi, Tubos Tigre, Sadia e Perdigão. A maior parte do frango e carne bovina consumidos na região vem do Brasil. Nos supermercados, você esses produtos brasileiros com rótulos em Português, o que faz a gente sentir que esta no Brasil por alguns momentos…

 

  Nosso Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, visitou a Arábia Saudita em Maio de 2009 e em reportagem na revista EPOCA Negócios de 25/05/09, o relato foi de que em conversa com o rei Abdullah, entre 3 cidades que o país pretende construir nos próximos anos (uma turística, uma industrial e uma tecnológica), resultaria no aumento da relação comercial Brasil e Arábia Saudita, principalmente na área de serviços. Como você vê essa perspectiva em nível de oportunidade de carreira e abertura do mercado de trabalho para profissionais brasileiros?

PBottesi: As perspectivas são muito boas. Não são para brasileiros mas para profissionais de outras nacionalidades.

Existe demanda por profissionais especialistas e experientes em suas áreas de atuação, profissionais que não podem ser encontrados aqui. Operários geralmente vem de países como Índia, Afeganistão, Paquistão, Sri Lanka, etc. Devido a proximidade geográfica. Assistentes, secretários, empregados domésticos vem normalmente das Filipinas. Já profissionais de alta gerencia vem da África do Sul, Europa, Canadá, Austrália e ate do Brasil.

 

 Você pensa em voltar para o Brasil ou para Inglaterra? Por quê?

PBottesi: Penso em voltar para o Brasil quando surgir uma boa oportunidade profissional.

 

Hoje na atual situação econômica Brasileira, você indicaria que o profissional siga carreira nacional? Onde você vê maiores oportunidades?

PBottesi: A economia brasileira esta crescendo e as perspectivas para o futuro são boas. Vejo oportunidades no Brasil nas áreas de negocio onde o país e forte, como mineração, agronegócio, bicombustíveis.

Antes de vir para o exterior, pense bem e veja se não ha oportunidades boas ai. Uma questão que deve ser levada em consideração por quem pensa em vir trabalhar no exterior e a atual forca do Real frente as moedas dos países desenvolvidos. Essa situação diminuiu em muito a atratividade da carreira no exterior no que diz respeito a questão financeira. Em alguns casos, essa questão pode inviabilizar a vinda para o exterior.

Pensem bem e façam contas.

Qual a dica você daria para um profissional em início de carreira que pretende alcançar a carreira internacional?

PBottesi: Muito planejamento, façam as contas, se informem sobre os países em que pretendem trabalhar, preparem-se muito bem psicologicamente e preparem-se para concorrer com profissionais do mundo todo por uma vaga. Seguindo esses passos você aumenta suas chances de se tornar um profissional global.

 

E para profissionais que pretendem trabalhar na Arábia Saudita?

PBottesi: Preparem-se para os desafios de ficar longe do Brasil. Conscientizem-se das dificuldades e das diferenças culturais entre os países. Estejam seguros do passo que vão dar para que não haja arrependimento.

 

Algo mais a acrescentar?

PBottesi: Quero me colocar a disposição para os brasileiros que precisem da ajuda ou suporte, para aqueles que pensam em mudar para a Arábia, ou então queiram fazer negócios com empresas daqui.

Já ajudei e estou ajudando alguns brasileiros no momento.

Meu e-mail e: pbottesi@uol.com.br

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01/29/2010 - Posted by | # ENTREVISTAS, Arábia Saudita

1 Comment »

  1. […] – Arábia Saudita e a Carreira Internacional de Pedro Bottesi Neto […]

    Pingback by Carreira Internacional « To Live Abroad | 02/08/2010 | Reply


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