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CHINA: Cultura e Negócios na visão de Roberto Dumas, representante do ITAU BBA

  Formado em Administração de Negócios pela FGV; Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra e Certificado de Máster em Economia Chinesa pela Fudan University; Roberto Dumas tem no seu currículo nada mais, nada menos do que sucesso em empresas como: Lloyds Banking Group; Citigroup e Itaú BBA. Foi professor de Macro Economia do MBA em Finanças pelo IBMEC; Professor visitante sobre Crise Financeira pela Fudan University e Professor Visitante da CEIBS – China Europe International Business School. Hoje, como atual representante do Banco Itaú BBA na China; conta sobre sua experiência profissional com a cultura e economia chinesa e nos dá sua opinião sobre oportunidades para Brasileiros na China.

Acompanhe na entrevista abaixo:

 

GZw: Qual eram seus planos profissionais antes de começar sua trajetória? Existia um plano de carreira traçado em direção à uma carreira internacional?

Roberto Dumas: Todo recém formado sonha com uma carreira internacional, mas no ano de 1988 não havia um plano de carreira detalhado onde estivesse evidente a minha passagem por essa experiência na China.

 

GZw: O primeiro país em que morou e trabalhou foi a China? Conte pra gente, algum erro, alguma “gafe” que você cometeu durante o contato com chineses?

Roberto Dumas: : Sim. A primeira “gafe” que cometi na China, nem foi tão grande assim, mas em um jantar de negocios perguntei a uma grande executiva de um banco Chinês, que estava grávida, se aquele era seu primeiro filho. Detalhe, a China ainda adota a política de “one child” apenas.

GZw: Alguma atitude tua ou da tua família chocou pessoas deste país devido a diferença cultural?

Roberto Dumas: Não

GZw: Quais as diferenças culturais entre Brasil e CHINA que podem se tornar empecilhos para a carreira de Brasileiros, caso não sejam respeitadas?

Roberto Dumas: Existem grandes diferenças culturais entre ambos paises. Ate 1976, pelo menos, a China era um Pais que pouco se importava com a privacidade dos outros. Alias era comum que vizinhos avisassem ao Governo atitudes diversas aquelas sugeridas pelo Partido Comunista Chinês. Esse traço de falta de respeito a privacidade continua de certa maneira ate hoje. Ou seja, é comum alguém lhe perguntar quanto é o seu salário, quanto você pagou pelo seu carro, etc. Nesse sentido, é importante que o expatriado entenda que essa “invasão de privacidade” não caracteriza maldade, mas resquícios de uma historia passada de alto controle por parte do governo e falta de privacidade.

Outro aspecto refere-se a confiança. Com base no confucionismo e na esfera de relevância de relacionamento: Família, amigos e colegas de trabalho, a confiança é de extrema importância. Os valores são maiores para a unidade familiar, circulo de amizades do que para o individuo em si. Uma vez estabelecido um elo de confiança com seu interlocutor, quebra-lo por algum motivo seria extremamente pernicioso para suas relações pessoais e profissionais. Tanto isso é verdade que, de certa maneira, a “palavra” vale muito mais do que o “contrato” em si.

GZw: Quais as diferenças culturais que precisam ser consideradas entre o Brasil e a CHINA, quando se pretende criar uma relação comercial?

Roberto Dumas: Relacionamento e conhecimento entre as partes em uma negociação comercial é importante em todo lugar do mundo. Não obstante, na China, o chamado “Guanxi” assume uma dimensão maior. O fato de você ter bons relacionamentos abre inúmeras portas em uma relação comercial. Isso deve-se justamente ao fato de que a figura “contratual” é de certa maneira uma novidade na China (não mais do que 35 anos), dessa forma, o bom conhecimento de pessoas chaves dentro de uma organização ou de um setor especifico lhe possibilita ganhar bastante escala na negociação.

Outro aspecto é a importância que os Chineses dão a “face”, ou seja você nunca deve fazer com que seu interlocutor comercial “perca a face” em um negociação, apontando erros na frente dos outros ou afetando negativamente sua imagem. É comum inclusive em momentos de negociação que o interlocutor “ofereça a face” a outra parte para que ela se sinta prestigiada. Ou seja, discussões comerciais acaloradas onde todos falam o que pensam do estilo americano ou Alemão, certamente não são adequadas na China. O pior disso é que para evitar “perder a face” com você, as vezes o “talvez, vamos analisar” signifique “não” e geralmente o interlocutor desavisado dessas diferenças culturais pode perder precioso tempo na negociação, mas a contra parte Chinesa entende que já tenha dado todas as indicações de que não existe interesse na relação comercial. Ou seja, é uma seara difícil de transitar.

GZw: O que os brasileiros podem aprender com os Chineses no que se refere a competências profissionais?

Roberto Dumas: Agilidade na implementação.

GZw: Qual a participação de mulheres no mercado profissional chinês?

Roberto Dumas: Não existe preconceito relevante neste sentido. A participação até mesmo em cargos de importância dentro do PCC, são ocupados por mulheres.

GZw: Que dicas você daria para um brasileiro que deseje se tornar um “Agente Conselheiro de Chineses” para investimentos aqui no Brasil? Uma pessoa que procure locais para investimentos, que procure parceiros de negócios…?

Roberto Dumas: A falta de conhecimentos básicos dos Chineses em relação ao Brasil ainda é muito grande. Comece sempre com informações básicas sobre economia, legislação de entrada de investimentos diretos, etc. O investidor Chinês não se assemelha ao investidor Europeu ou Americano que já tem um conhecimento prévio do Brasil. É importante que todos os aspectos básicos sejam informados. Para não “perder a face” geralmente o investidor Chinês pode não dizer que não entendeu ou recusar-se a fazer inúmeros questionamentos, uma vez que isso pode ser interpretado por eles como falta de conhecimento o que é vergonhoso “perde a face”. Essa imagem de despreparado e de falta de conhecimento dificilmente será passada por eles. Dessa forma, apresente informações básicas sobre o Pais, regulamentação, projeto, fluxo de caixa, tudo nos mínimos detalhes.

GZW: Você vê o Brasil como um país emergente? Acredita que o Brasil terá um dos maiores PIBs do Mundo nas próximas décadas?

Roberto Dumas: Sem duvida.

 GZw: Algumas reportagens mostram que o Brasil está numa fase de atratividade de investimentos estrangeiros. Falam até em “brasilmania”. Você indica que o profissional siga carreira no Brasil ou na China? Em que setores você enxerga maiores oportunidades de Carreira nesses países?

Roberto Dumas: Carreira na China ou no Brasil na realidade não importa tanto, mas é importante que o profissional conheça a situação atual da China. Não digo apenas sobre como fazer negócios, mas muito mais sobre sua economia e de que forma o seu crescimento é sustentado ou não e quais fatores influenciariam nesta avaliação.

Com a queda da demanda dos EUA e da Europa, subproduto da crise financeira de 2007, os Chineses estão ávidos por abrir novos mercados (América Latina e África), alem de garantir o acesso a matérias primas como minério de ferro, petróleo e produtos agrícolas. Certamente nos próximos anos veremos varias operações de fusões e aquisições de empresas chinesas comprando ativos brasileiros naqueles setores mencionados, alem de investimentos em logística que barateiem o escoamento das matérias primas para a China. Setores: Mineração, agribusiness, investment Banking com foco em Ásia seriam setores promissores.

 GZw: Quais os pontos vulneráveis da China que o Brasil deve explorar para crescer no mercado mundial?

Roberto Dumas: O interesse de diversificação de suas reservas internacionais em relação ao US Dólar, possibilita uma grande oportunidade ao Brasil em relação a venda de títulos públicos brasileiros e ações de primeira linha para o People’s Bank of China (Banco Central Chinês) e o China Investment Corporation (CIC – fundo soberano Chinês com US$200bn). Além, obviamente da necessidade da China em garantir seu acesso a matérias primas para continuar com seu crescimento econômico.

 GZw: Acredita que para isso seriam necessárias mudanças legislativas?

Roberto Dumas: : Não. Talvez do lado Chinês sim, de forma a possibilitar que o investidor privado Chinês também possa participar de fundos de papeis brasileiros. O governo Chinês já permite que investidores (retail) invistam em títulos do Reino Unido, de HK e dos EUA. Os investidores institucionais por sua vez (Qualified Domestic Institutional Investors) já estão autorizados a investir em papeis brasileiros.

GZw: Quais os principais interesses da China no Brasil?

Roberto Dumas: Acesso a novos mercados coma queda da demanda dos paises do G3 e garantir seu acesso a matérias primas (minério de ferro, soja e petróleo)

 GZw: Em 2010 a perspectiva é de que a China se torne a segunda potência econômica do mundo. Quais os setores estarão à frente desta conquista? Automobilística? Usinagem? Exportação de Tecnologia? Seguros?

Roberto Dumas: Automobilística

 GZw: Os bancos Brasileiros, assim como os Chineses, prometem crescimento para os próximos anos. Apostar na carreira em um banco chinês é uma escolha assertiva?

Roberto Dumas: Os bancos chineses estão ávidos em fazer parcerias ou contratar executivos das áreas de Risk Management e Credit research como forma de obterem melhor conhecimento de management.

 GZw: Hoje a China ainda é a maior emissora de gases causadores do efeito estufa. Como está o “esverdiamento” chinês e o que este processo tem criado de oportunidade de carreira?

Roberto Dumas: Oportunidade relacionada a negociação “trader” de Certified Emission Reductions (CER)

 GZw: A China é dona de uma das maiores reservas de carvão do mundo. Com a sustentabilidade como prioridade para o crescimento nos próximos anos, estão demolindo as usinas de carvão. O quanto isso será impactante na economia do país? Existe a probabilidade de que haja muito desemprego?

Roberto Dumas: O perigo do desemprego na China não esta relacionada a desativação de usinas de carvão, mas no fato de a China ter um modelo de crescimento capital intensive e não labour intensive. Ou seja, o PIB cresce, mas a geração de empregos esta cada vez menor. Um estudo do Banco Mundial mostra que nos últimos 5 anos, para cada 10% de crescimento do PIB Chinês, criou-se apenas 1% no nivel de emprego.

 GZw: Em uma década, como você projeta a valorização da moeda brasileira comparando com a valorização da Chinesa?

Roberto Dumas: O Brasil apresenta bons fundamentos e certamente passara a atrair cada vez mais investimentos externos, o que certamente eh uma base para o fortalecimento de sua moeda. No caso da moeda Chinesa, certamente devemos esperar uma apreciacao, principalmente que o desejo do governo chinês em balancear o modelo de crescimento economico chines, deixando de ser investment and export oriented para ser mais consumption oriented.

 GZw: Você pensa em voltar para o Brasil ou pretende continuar sua carreira internacional?

Roberto Dumas: Certamente a carreira internacional é muito rica em termos de conhecimento m relacao a novos paises, culturas, etc. Vamos avaliando.

 GZw: Qual a dica você daria para um profissional em início de carreira que pretende alcançar a carreira internacional?

Roberto Dumas: Deixar claro para sua organização o seu interesse em ter uma experiência no exterior como expatriado. Vale muito a pena, especialmente do outro lado do mundo.

GZw: Para quem quiser buscar informações sobre a China, você indica algum livro ou site?

Roberto Dumas: Vários. Basicamente em economia:

PAPERS

1. Is the Chinese Growth Miracle Built to Last?

Eswar Prasad (2007)

http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1012561

2. Modernizing China’s Growth Paradigm

Eswar Prasad and Raghuram G. Rajan (2006)

http://ideas.repec.org/p/iza/izadps/dp2248.html

http://www.imf.org/external/pubs/ft/pdp/2006/pdp03.pdf

3. Putting the Cart Before the Horse? Capital Account Liberalization and Exchange Rate Flexibility in China 

Eswar Prasad, Thomas Rumbaugh and Qing Wang (2005)

http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=701273

4. China‘s Rebalancing Act

Jahangir Aziz and Steven Dunaway (2007)

http://www.imf.org/EXTERNAL/PUBS/FT/FANDD/2007/09/aziz.htm

5. Rebalancing China’s Economy : Modeling a Policy PackageJianwu He and Louis Kuijs (2007)

http://www.worldbank.org.cn/english/content/working_paper7.pdf

6. How wil China’s Saving-Investment Balance Evolve?

Louis Kuijs (2006)

http://www-wds.worldbank.org/servlet/WDSContentServer/WDSP/IB/2006/06/28/000016406_20060628102757/Rendered/PDF/wps3958.pdf

7. Explaining China’s Low Consumption: The Neglected Role of Household Income

Jahangir Aziz and Li Cui (2007)

http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2007/wp07181.pdf

8. China: Toward a Consumption-Driven Growth Path

Nicholas Lardy (2006)

http://www.petersoninstitute.org/publications/pb/pb06-6.pdf

9. Modelo de Crescimento Econômico Chinês

Roberto Dumas Damas (2008) – CEBC

http://www.cebc.org.br/sites/500/521/00001156.pdf

 

9. Mudanças na Política Econômica Chinesa

Roberto Dumas Damas (2008) – CEBC

http://www.cebc.org.br/sites/500/521/00001134.pdf

 BOOKS

  1. 1.       Debating China’s Exchange Rate Policy

Morris Goldstein and Nicholas Lardy (2008)

http://bookstore.petersoninstitute.org/book-store/4150.html

2. China: The Balance Sheet: What the World Needs to Know Now About the Emerging Superpower (Institute International Econom)

C. Fred Bergsten, Bates Gill, Nicholas R. Lardy and Derek Mitchell (2006)

http://www.amazon.com/China-Emerging-Superpower-Institute-International/dp/1586484354

3. Understanding and Interpreting Chinese Economic Reform

Jinglian Wu (2005)

http://www.amazon.com/Understanding-Interpreting-Chinese-Economic-Reform/dp/1587991977

4. The Chinese Economy: Transitions and Growth (great book!!!)

Barry Naughton (2006)

http://www.amazon.com/Chinese-Economy-Transitions-Growth/dp/0262640643

5. China‘s Rise: Challenges and Opportunities
C. Fred Bergsten, Charles Freeman, Nicholas R. Lardy and Derek J. Mitchell (2008)

http://bookstore.petersoninstitute.org/book-store/4174.html

6. Banking in China

Volaine Cousin (2007)

http://www.amazon.com/Banking-Palgrave-Macmillan-Financial-Institutions/dp/0230006957

/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1232273619&sr=1-1

7. China into the Future Making Sense of the World’s Most Dynamic Economy

Edited by John Hoffmann and Michael J. Enright (2008)

http://www.amazon.com/China-Into-Future-Dynamic-Economy/dp/0470822449

 

8. Phantom of the China Economic Threat – Shadow of the Next Asian Crisis

Chi Lo (2007)

http://www.amazon.com/Phantom-China-Economic-Threat-Shadow/dp/1403987882

 

9. A China de Deng Xiaoping – o Homem que Pôs a China na Cena do Século XXI

Michael E. Marti (2006)

www.americanas.com.br/AcomProd/1472/705675 – 48k

 

10. The Visible Hand of China in Latin America

Edited by Javier Santiso

http://www.amazon.com/Visible-America-Development-Centre-Studies/dp/9264027963

11. Capitalism with Chinese Characteristics: Entrepreneurship and the State
Yasheng Huang (2008)
http://www.amazon.com/Capitalism-Chinese-Characteristics-Entrepreneurship-State/dp/0521898102

12. The Emergence of China: Opportunities and Challenges for Latin America and the Caribbean

*David Rockefeller/Inter-American Development Bank (2003)

http://ctrc.sice.oas.org/geograph/caribbean/China_idb.pdf

13. The Future of China’s Exchange Rate Policy

Morris Goldstein and Nicholas R. Lardy

Peterson Institute for International Economics (July/2009)

http://bookstore.piie.com/book-store/4167.html

05/04/2010 Posted by | # ENTREVISTAS, China | Comments Off on CHINA: Cultura e Negócios na visão de Roberto Dumas, representante do ITAU BBA