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# Relatos Interculturais do Country Manager da SKF Canadá (Entrevista)

*Por Graziele Zwielewski

João Luis Sandoval Ricciarelli é um executivo de carreira internacional que tem no seu currículo uma bagagem intercultural invejável. Diz que depois de ter  negociado com mais de 42 países e ter assumido posições diferentes e ter sido expatriado para 3 países (além do próprio Brasil), nada mais lhe assusta. Ele foi Diretor da ABB Company, Vice President da SKF Reliability Systems, CEO da SEMCO Manutenção Volante, RS Europe Área Director da SKF, Key Account Director SKF na Europa – UK  e por fim assumiu a posição de Country Manager na SKF Canadá, onde mora atualmente com a esposa e duas filhas (uma de 15 e outra de 2 anos). João conta pra gente, um pouco sobre suas dificuldades que encontrou e competências que desenvolveu em lidar com as diferenças culturais ao longo da sua carreira. Confira na entrevista abaixo.

Qual o fator determinante pra você e sua família aceitarem a transferência internacional?

Ricciarelli: Além do Canadá ser considerado como um país importante para a SKF, um forte determinante foi a oportunidade profissional como Country Manager em um país importante para minha empresa. Pensando na minha família, o Canadá seria uma boa opção já que lá posso encontrar uma boa educação e segurança. Obviamente o lado financeiro também foi muito importante para facilitar a mudança.

De quem você recebeu auxiliou durante a mudança com recepção no país, busca de bairros para moradia, busca de escolas e cursos, inserção em redes sociais…?

Ricciarelli: Tudo foi providenciado pela SKF, minha empresa contratou serviços de uma empresa de Relocation para nos dar suporte.

De zero à dez (0-10), quanto você acredita que precisou abrir mão de tudo que lhe é conhecido para entrar em um mundo com novas representações e novos significados?

Ricciarelli: Seis

Quais foram os fatores interculturais mais estressantes pra você?

Ricciarelli: A forma de se relacionar com as pessoas da outra cultura; os serviços de saúde; a falta de relações sociais; informalidade nas relações; a alimentação; idioma; diferença de fusos (nesta ordem).

Houve alguma situação em que você se sentiu confuso ao interpretar alguma informação no país onde está morando?

Ricciarelli: Em cada país existem algumas particularidades que acabam sempre atrapalhando mesmo os mais experientes. Particularmente eu esperava que viver no Canadá seria muito parecido com os Estados Unidos, em termos de usos e costumes, mas encontrei um país que tenta manter sua própria identidade a todo custo. As diferenças existentes dentro do próprio país também são sempre confusas, por exemplo, existem diferenças na lei de trânsito quando você dirige na província de Quebec por exemplo.

Você se lembra de uma ou mais diferenças entre o Brasil e o país onde você está morando, que em um deles é considerado normal e no outro não?

Ricciarelli: Sim, me lembro. Ao entrevistar candidatos para algum cargo, eu normalmente pergunto a idade da pessoa, o que no Canadá não é bem aceito. Outra grande diferença entre o Brasil e o Canadá, está relacionada a maneira de se fazer negócio entre empresas. Eu nunca perdi negócios, mas quando estamos negociando, se concordamos verbalmente, vale tanto quanto colocar em um contrato. Dar sua “palavra” vale muito por aqui, e as conseqüências em não manter podem ser muito ruins.

A outra grande diferença que pude verificar foi ao comprar minha casa. Não se conhece o dono da casa que estamos negociando, trocamos inúmeras correspondências com o “Real State agent” e depois quando chegamos ao valor, os advogados de cada parte fecham a negociação sem a sua presença. Outra diferença muito grande é o sistema bancário. Aqui para conseguir um cartão de crédito é muito difícil. Para te deixar nervoso mesmo, uma vez que eles pedem que vc tenha uma conta de água ou luz para conseguir o cartão, e o pessoal pede um número de cartão para você ter água e luz instalada. O que vem primeiro a galinha ou o ovo?

Alguma diferença cultural entre o Brasil e o país onde você mora, que te chocou?

Ricciarelli: Sendo sincero, este é o meu terceiro país, fora o Brasil. Tive a oportunidade de visitar, fazer negócios em outros 42 países, portanto NADA pode me chocar. Às vezes as pessoas podem estranhar a diversidade étnica existente aqui no Canadá. Principalmente na cidade em que moramos, a quantidade de chineses impressiona. Invariavelmente você recebe panfletos comerciais com promoções em chinês. O brasileiro está acostumado em diversidade de raça , mas não com essa diversidade cultural.

Alguma atitude tua, chocou outras pessoas deste país?

Ricciarelli: O Canadense, em termos de gestão de negócios é mais tranqüilo. Aqui não se tem o senso de urgência que aprendemos a viver no Brasil. Onde trabalho, meu pessoal esperava lidar com um gestor mais tranqüilo, sem tanta agressividade. Trabalho cerca de 10 a 12 horas por dia, o que também gera um certo problema por aqui, onde as pessoas trabalham o famoso “9 to 5”

Em algum momento você se sentiu desconfortável, como um “peixe fora d’água”?

Ricciarelli: O começo é sempre difícil, você passa a maior parte do tempo sozinho. Na mudança para o Canadá, eu deixei minha família na Inglaterra para que minha filha mais velha terminasse o ano letivo, depois eles mudaram. Foram seis meses (durante o inverno) muito difíceis. Mudar para um país novo, temperaturas ao redor de -20C todos os dias, depressão ataca mesmo que você não queira. Por incrível que possa parecer, nossa maior dificuldade foi quando voltamos ao Brasil em 2004 por um período de 9 meses.

Em algum momento sentiu vontade de voltar para o Brasil, devido a diferença cultural?

Ricciarelli: Não digo pela diferença cultural, mas sempre dá uma vontade de voltar quando você tem que tirar neve da frente da sua casa com uma temperatura de -20C.

Qual a vantagem de conviver a maior parte do tempo com grupos de Brasileiros expatriados como você?

Ricciarelli: Pode parecer estranho, mas nunca tivemos muito contato com brasileiros por onde passamos. Os poucos contatos que tivemos, foi mais com brasileiros que já estavam no país há muito tempo. Não acredito que a convivência possa facilitar. Depende do grupo onde você está pode até atrapalhar, pois entendo que ao mudar para um país novo, você tem que se adaptar as condições locais, e não tentar fazer um “mini-Brasil” onde se vive. Normalmente o brasileiro se encontra para motivos de festas, entendo que deveríamos criar mais grupos para tratar assuntos sociais e de trabalho. Aqui no Canadá a quantidade de brasileiros não é representativa, portanto fica mais difícil.

Do que você mais sentiu ou sente falta, que no Brasil você tem? Explo: amigos, praia, alimentação, clima, humor das pessoas…  Por quê?

Ricciarelli: A lista é grande, não muito diferente do que você menciona. A razão é muito fácil de explicar. Eu nasci e cresci no Brasil Minha esposa é brasileira, minhas filhas são brasileiras, ou seja, tudo de bom na minha vida é Brasil. Minha carreira profissional foi muito boa também no Brasil, não precisei sair do País para ter uma carreira melhor. O que sou hoje foi fundamentado no meu país. E normalmente, quem mora fora, lembra-se muito do que era bom.  No meu caso, sinto muito falta da minha mãe, e dos meus amigos. Pode parecer estranho, mas falo com minha mãe muito mais agora do que quando morava no Brasil.

Qual papel você acredita que a família tem no auxílio à adaptação cultural?

Ricciarelli: O papel é fundamental.  Acho que não estaria aqui se não fosse pelo apoio da minha esposa e da minha filha mais velha. É muito importante também o lado de quem fica no Brasil. Se você não contar com a compreensão deles pode complicar e muito. Um dos fatores mais importantes, é o de estar inserido na comunidade local, adaptar-se aos usos e costumes do País, caso contrário, você somente ficará pensando: “como era bom no Brasil”.

No que a experiência de ser expatriado, contribuiu pra você?

Ricciarelli: Em primeiro lugar em valorizar as coisas boas. Aumentar em muito a consciência de ser família. Acho que sou um pai mais presente do que eu era quando morei no Brasil, participo bastante da vida escolar da minha filha. Mas ao mesmo tempo ter uma profunda decepção ao ver que o país que eu amo, tem problemas básicos como educação e segurança que não são prioridade para o governo atual.

Como é criar seus filhos, longe de tios, avós, primos… que estão em outro país?

Ricciarelli: Acho que este é um ponto complicado. Querendo ou não, você acaba quebrando o elo familiar. Para meus filhos, família somos nós, elas, infelizmente, estão crescendo sem os avos, tios e primos. No meu ponto de vista esta é a pior parte, e passa despercebida pelas minhas filhas. Como são novas, ainda não percebem a importância da família, com certeza devem sentir no futuro.

Alguma situação onde seus filhos passaram por dificuldades com relação à adaptação cultural?

Ricciarelli:Entendo que minha filha não teve problemas fora do Brasil, na verdade ela teve mais problemas quando voltamos ao Brasil em 2004, onde a grande maioria das crianças na idade dela (então 10 anos) andavam com seguranças e baby sitters em lugar dos pais.

Se você precisar voltar para o Brasil, como acredita que será a (re) adaptação deles?

Ricciarelli: Difícil, quase impossível. A minha filha mais velha dificilmente volta ao Brasil, devido a diferença cultural que ela tem. Brasil é para passar férias não para morar.

O que poderia ter sido feito para evitar essas situações de dificuldade?

Ricciarelli: A diferença entre crianças que foram criadas no Brasil e as que estão fora é muito grande. Minha filha não teve baby sister, não usamos guarda costas, nosso carro não era a prova de balas, etc…Ela entende que para ir de A para B, pode andar sozinha o que seria quase impossível em São Paulo.

 

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01/19/2010 Posted by | Canadá | Leave a comment